• Giovanna Akkari

3 Perguntas: Diana Bonar - Estudos sobre a Paz e as Necessidades Humanas

Updated: Mar 8, 2020


Diana em Sua Viagem à Tailândia | Fonte: Acervo Pessoal

A carioca Diana Bonar, cresceu em contato direto com diversas culturas do nosso globo. Seu pai, escocês, falava inglês e sua mãe falava português. Vivendo até os 4 anos de idade no Japão, tendo contato com a língua do país, e desde pequena aprendeu sobre KI, força interior, e praticava meditação com seu pai, médico e mestre em Artes Marciais. Sua mãe a educava, junto a sua irmã, com muito acolhimento emocional, paciência e diálogo e junto aos livros de psicologia e parapsicologia, provocando uma imersão intensa na espiritualidade, fazendo Diana crescer acreditando nas energias do universo.


Diana é especialista em Transformação de Conflitos e Estudos da Paz pela Chulalongkorn University, na Tailândia, além de coordenadora da área de Treinamento e Conteúdo da Organização Internacional Luta pela Paz, onde trabalha com prevenção de violência armada no Brasil e no mundo. Durante 10 anos de atuação prática, com diversas metodologias de prevenção de violência, Diana desenvolveu a chamada consciência social, que se faz de grande importância nos dias atuais, propondo reflexões sobre como setores distintos da sociedade são impactadas de forma diferente pela violência.


Compreender o racismo, o feminicídio e outras violências Estruturais se faz fundamental para atuar em causas de impacto social - diz Diana.

Atualmente, Diana Bonar atua dentro da PeaceFlow, empresa a qual fundou e tem como missão contribuir para que pessoas, empresas e sistemas lidem com conflitos de forma positiva e colaborativa, através de palestras, treinamentos, oficinas de mediação de conflitos e facilitação de diálogos, além de consultorias para organizações e mentorias individuais em transformações de conflitos para empresas como o Facebook, agências do Governo como a Defensoria Pública e a Polícia Civil, entre outras, colocando em prática através da força coletiva o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável #16, sobre Paz, Justiça e Instituições Eficazes.


Diana Bonar | Fonte: Acervo Pessoal

1) Como você descobriu a Comunicação Não-Violenta e qual importância você atribui a mesma quando falamos de Desenvolvimento Social Sustentável e Empoderamento de Comunidades? Como a PeaceFlow põe em prática essa linha de discurso?


Descobri a Comunicação Não-Violenta (CNV) há 10 anos mais ou menos, em um projeto de educação complementar no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. Estava recebendo formação na mediação de conflitos, onde dentro disso usava muito a CNV. Como na época também fazia Pós-Graduação na área de mediação, com cursos paralelos, pude conectar essa multidisciplinaridade para poder melhorar o conhecimento e a aplicação no campo. Partindo disso aprimorei muito o meu trabalho e comecei a estudar mais afundo as temáticas acima, conseguindo aplicar na prática pois dava aula sobre inteligência emocional e comunicação, então desde que aprendi já estava aplicando e precisando repassar esses ensinamentos.


CNV não é uma técnica de comunicação. Ela bebe na fonte dos princípios de não-violência, com referências de Gandhi e Martin Luther King, onde é possível trazer mudanças sociais sem que se pegue em armas e que se tenha uma guerra. A CNV quer propor mudanças nas estruturas, para que elas deixem de ser violentas e passem a ser mais inclusivas, com mais equidade e que sejam desenhadas a partir da seguinte premissa:


"Queremos atender as necessidades humanas de todos os atores envolvidos em determinada questão, e para que todos possam se desenvolver, já que a CNV em última instância é para contribuir com a vida e o bem estar de todos os seres. A Comunicação Não-Violenta precisa ser usada para mudanças de sistemas e meios sociais. Se usamos para pacificar as nossas relações interpessoais mas não conseguimos compreender como transformamos os sistemas para que eles deixem de ser ambientes tóxicos, passamos a usar como narcótico e como uma pílula de distração"


Treinamento para a Turma do Médico Sem Fronteiras | Fonte: Acervo Pessoal

O Complexo da Maré tem um contexto que a comunidade é afetada pelo crime e pela violência. Os jovens desse lugar precisam se sentir pertencentes: de recursos financeiros, de diversão, de adrenalina, se sentir incluídos, protegido e com segurança. São necessidades humanas universais e que são exatamente as mesmas necessidades de zonas ricas da cidade.


Há 4 elementos principais para serem levados em consideração quando desenvolvemos uma estratégia de atuação e como atendemos a necessidade de um público:


1. Contexto em que o jovem está inserido;

2. Recursos internos: inteligência emocional e capacidade cognitiva;

3. Bens materiais;

4. Rede de apoio


A forma como essas pessoas vão fazer suas escolhas para atender essas necessidades influencia em todo o resto, já que a CNV entende que todo comportamento humano é uma busca por atender essas necessidades básicas. Quando a Luta Pela Paz faz uma pesquisa para entender as necessidades desse território - por isso usa boxe e arte marciais - é uma atração para dentro da organização que está como uma opção de acolhimento e de pertencimento, já que quando um jovem entra em uma gangue de tráfico de drogas, por exemplo, ele tem a necessidade por acolhimento, adrenalina, diversão e identidade, que são atendidas de uma forma ruim para ele e para a sociedade. Agora, quando entram para Luta Pela Paz essas mesmas necessidades são atendidas através do esporte, de referências positivas, aulas de educação, empregabilidade e suporte social.


Quando desenha-se uma ONG ou uma empresa, é importante pensar como essa iniciativa vai entender as necessidades mais importantes para as pessoas daquele local. Quando isso é feito, as instituições oferecem mais escolhas e repertórios que contribuem para esses indivíduos, e também para sociedade como um todo.


A PeaceFlow atua de três formas principais:


1. Desenvolvimento de consciência social: Levamos para todos os públicos questões sobre pobreza, racismo, desigualdade social, sobre contextos de inserção da juventude, recursos internos como inteligência emocional e capacidades cognitivas, bens materiais e redes de apoio, oferecendo treinamentos dentro de empresas e também em comunidades. A PeaceFlow tem o privilégio em circular nas duas realidades (empresas e comunidades) e mesmo que elas não se conheçam, quebram estereótipos já que sempre são tratados elementos que disseminam a semente da consciência social.





2. Em todas as iniciativas pagas da PeaceFlow, são sorteadas 3 bolsas para pessoas necessariamente de comunidades afetadas pelo crime e pela violência. É realizada uma triagem em que mulheres e negros tem preferência e depois pessoas que fazem trabalhos de transformação social, no qual a CNV possa empoderar o trabalho que essa pessoa desenvolve.


3. A PeaceFow doa parte do lucro para dois projetos sociais: "Destemidas" no Complexo da Maré, onde trabalham com empoderamento feminino através do esporte e do desenvolvimento social e o "Abraço Campeão" no Complexo do Alemão. Inclusive já demos aulas para as pessoas dos dois projetos, então sabemos em vivências reais que essa doação de parte do lucro faz muita diferença.


2) Ao falar de sua trajetória, você menciona, ao retornar de Londres, que sua única certeza era de não querer investir sua energia vital em algo que favorecesse apenas 1 pessoa, gerando concentração de renda e exploração. Você ainda leva esse valor consigo? E quais as possibilidades atuais para profissionais que partem do mesmo posicionamento e estão começando suas carreiras?


Quando terminei a faculdade de Relações Internacionais tive um conhecimento muito apropriado sobre o nosso mundo. Do sistema capitalista, dos direitos humanos, dos trabalhos das ONGs, das intervenções humanitárias e da influência das multinacionais na política internacional. Naquela época dentro da leitura que eu tinha do mundo, soube que não queria investir a minha energia em uma grande empresa exploradora de petróleo que danificaria o meio ambiente. Hoje é muito mais sobre o valor que a empresa prega e desde que os funcionário não estejam sendo explorados e que possam estar ajudando o nosso meio, por exemplo, aceitaria trabalhar também! Mas os valores dela precisam estar alinhados aos valores de justiça e equidade que tenho.


Fonte: Acervo Pessoal

Através da minha força física e da minha vitalidade, quero transformar algo para melhor. Hoje eu sei que não vou mudar o mundo, mas vou mudar a parte que eu consigo alcançar e juntos nós conseguimos abrir um espaço maior, com cada um impactando o seu espaço. Sinto que estou agregando força com uma galera pulsante e isso me garante uma grande satisfação.


Os novos profissionais são pessoas que já têm mais consciência do que a minha geração. Os jovens estão demandando muito mais inclusão e diversidade e isso faz com que as empresas fiquem constantemente pressionadas para que se adequem e se transformem. Há muito espaço para treinar as empresas em diversidade, gênero, etc. Elas precisam se adequar, inclusive porque entre tantas pesquisas, os resultados norteiam que a diversidade nas empresas aumenta o lucro, então é bom para todo mundo.



Diana Bonar | Fonte: Acervo Pessoal

Atuo com a PeaceFlow há 10 anos, mas sempre estive em grupos que me fizeram perceber que é importante para as pessoas uma visão sobre os tópicos acima discutidos, porque eu sempre estive falando sobre as coisas que vivenciava, princialmente dentro do Complexo da Maré. Poderia ajudar a quebrar estereótipos, construir pontos, trabalhar com empatia e paixão, então vi que precisava colocar isso pro mundo.






3) Sabendo que você carrega muita bagagem, que paralelo você faz das comunidades globais que você já impactou com o trabalho que a Peaceflow desenvolve hoje no Brasil?


Muito do conteúdo que eu estudei veio do inglês, então a PeaceFlow veio como uma pretensão de ser um canal que possa falar sobre resolução de conflitos e estudos da paz na língua portuguesa, com entrevistas por exemplo. Sentia medo de me expor, colocar a cara em tudo. Foi quando eu fui pra Tailândia fazer a especialização em estudos de conflito que tive uma experiência muito forte. Parte da especialização foi um estudo de conflitos reais que aconteceram ou ainda acontecem, no caso com estudo de caso no Camboja para entender sobre o genocídio do Khmer Vermelho, que dizimou milhares de pessoas de uma forma muito cruel. Visitei os campos de extermínio e fiquei muito traumatizada porque vi o nível que as pessoas chegam de desumanização, pensando em como esses soldados tiveram que ser desumanizados para matar milhares de pessoas de maneira tão cruel.


Quando eu voltei para a Tailândia, a primeira pergunta que o professor fez foi:


"Como treinar um assassino?"


O processo de desumanização tem um percurso que a pessoa precisa passar e quando eu vi isso pensei que também havia um processo reverso, o de humanização. Foi nesse momento que, talvez por estar distante de minha realidade local, me empoderei e criei o canal da PeaceFlow e as pessoas me apoiaram e gostaram! A PeaceFlow nasce no campo de extermínio do Camboja e esse broto nasce de uma indignação, cresce com a inspiração de um professor e vem se materializando agora no Brasil.



Especialização na Tailândia sobre Estudos da Paz e Resolução de Conflitos | Fonte: Acervo Pessoal

A necessidade dos jovens de todos os lugares que a Luta Pela Paz se faz presente segue uma metodologia adaptável porque é baseada no contexto social em questão. Todos os jovens tem necessidade de acolhimento, de pertencimento, de expressão, de identidade e de recursos. Essa metodologia é desenhada para atender essas necessidades em contextos críticos e ela se adapta a partir do fato de que não é rígida para se adequar a cada lugar. O que a PeaceFlow faz quando trabalha com consultoria é entender o que aquelas pessoas precisam e como o sistema desse lugar funciona. Se tem um grande nível de insatisfação, quer dizer que há um grande número também de necessidades não atendidas e a partir disso ajudamos na construção de uma estratégia para supri-las.




Para saber mais sobre a PeaceFlow e sobre Diana Bonar, acesse o site https://www.peaceflow.com.br/ e siga a página no Facebook e no Instagram.


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